Uma das grandes questões da humanidade moderna é a busca pela notoriedade. Queremos ser notados de qualquer jeito, nem que tenhamos que amputar a nossa dignidade ou por outra, nem que o outro tenha que virar cadáver: o que torna dolorosa a convivência humana. Por isso, uma vez a outra, precisamos parar e pensar, que tipo de notoriedade buscamos para as nossas vidas? Que ser notável pretendo me tornar, eu como um ser racional? Essas e mais questões semelhantes precisam ser discutidas no nosso diaa-dia para que a nossa existência não seja robotizada por outros, por isso: é bom que o homem pense mais um pouco.
No ano de 1889, no século XX, nasceu um dos homens mais cruéis da história da humanidade: Adolf Hitler. Isto porque ele e todos aqueles que o seguiam foram responsáveis pelo maior Holocausto/genocídio da história da humanidade durante a Segunda guerra Mundial. A série com 6 episódios (Hitler e o nazismo: começo, meio e fim, 2024) criado pelo cineasta norte-americano Joe Berlinger, nos conta que Hitler era um jovem, que amava desenhar. Queria ser pintor. Mas não foi aceite, seus desenhos foram considerados inúteis e que ele não tinha talento para pintar, daí que ele se mudou para Alemanha, em busca de uma vida notada por outros. Quando criança, Hitler já buscava essa notoriedade, essa ascensão por um homem visível, por isso se tornou no que se tornou: um dos maiores nojos da humanidade. Essa narrativa nos revela a grande necessidade que muitos de nós desejamos insaciavelmente a notoriedade, a busca pela notoriedade.
Essa questão foi também discutida pelo escritor e filosofo Brasileiro Mario Sergio Cortella no seu livro (Viver em paz para morrer em paz, 2017) que pode ser lido como uma dose de reflexões sobre o autoconhecimento. É uma obra filosófica, que discute questões socias, tanto questões existências do homem. Umas das frases mais marcantes que vale ser pensada é: “hoje a modernidade transformou o ruido numa forma de expressão, a tal ponto que a nossa expressão de vida tem de ser ruidosa” Essa ideia e mais outras que constam do livro, marcam não só a vibração intensa que cada um de nós vive hoje, mas marca igualmente a sociedade contemporânea na qual essa intensidade vibratória do nosso eu, está adentrada. Por isso que é importante que pensemos: que tipo de ser notável buscamos?
E assim, retomando ao nosso pensamento, chamo atenção; hoje, embora todos nós quiséssemos ser notados de alguma maneira ou de algum modo, seja no que for, essa busca pelo ser visível, pelo ser notável não pode ser o motivo de baixar o outro, de tornar o outro pequeno ao ponto de amputar-lhe a vida.
A falta da razão e reflexão em relação àquilo que buscamos em nossas vidas ou importamos em nossas convivências diárias com o outro é o que torna assustadora a nossa convivência. Em oposição a isso, está a plena consciência assumida, isto é, a capacidade que cada um de nós tem de assumir conscientemente aquilo que busca para a sua vida. É com ela que você se agarra à vida, ao mundo de ebulição no qual as nossas vidas estão entregues.
A psicóloga Edith Eva Eger, nascida na Hungria, mas hoje mora nos Estados Unidos com seus 90 anos de idade. É umas das grandes sobreviventes do holocausto durante a segunda guerra mundial, ela escreveu umas das obras mais marcantes do século XXI: ( A jovem bailarina de Auschwitz,, 2025) uma obra que talvez eu possa chamar de uma autobiografia, um livro sensível e de fácil leitura. A autora conta-nos a dura vida que teve durante a segunda Guerra Mundial e a transição de uma vida pós-traumática e que hoje, pela graça divina, ela se tornou referência ao nível mundial naquilo que ela faz de melhor, que é escrever livros e ajudar as outras pessoas a superar a vida traumática.
Chamo atenção à leitura do livro para aqueles que ainda não o tenham lido porque revela, não necessariamente a ideia de sermos notados, mas reflete sobre questões que marcam a nossa capacidade de refletir em relação àquilo que buscamos ser. Ou, como eu dirá: o buscar consciente é um meio caminho andado, enquanto o buscar inconsciente do próprio eu, é um tormento constante. O buscar consciente leva à razão. A razão pelo que buscamos ser é um ponto de partida, é o meio caminho andado.
Na maioria das vezes, algumas pessoas têm a tendencia, o hábito de deitar a culpa, dos indesejados feitos, indesejadas consequências ao mundo inconsequente que vivemos, às outras pessoas. Pois, cada um de nós tem o dever de assumir, feliz ou infelizmente, a responsabilidade pelas escolhas naquilo que buscamos ser, sem que o outro tome a culpa. Obviamente que a felicidade, inconsequente que é, não está naquilo que buscamos ser, mas está no que é, no que somos agora: é preciso abrir a porta para que possa sair. Então para que serve a notoriedade do homem? De fato: a notoriedade que o homem busca, insaciavelmente, não serve para nada. Com diria, Clovis de Barro Filho: “a felicidade não é para nada.” Assim serve também para essa busca por ser notável, ela em si, não é nada. Por isso, chamo atenção: é bom que o homem pense mais um pouco.
Referências:
BARROS FILHO, Clovis de: A felicidade é inútil, Porto alegre: CDG, 2019.
CORTELA, Mario Sergio: Viver em paz para morrer em paz: se você não existisse que falta faria?, 1.ed. São Paulo: Planeta, 2017.
EGER, Edith Eva: A jovem bailarina de Auschwitz, tradução Livia de Almeida, 1. ed. Rio de Janeiro, sextante, 2025.
HITLER e o nazismo: começo, meio e fim: Direção, Joe Berlinger, S.I. Netflix, 2014.
Por Gaspar Pagarache

