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    Home»Ensaio»Mataram o nosso chefe?
    Ensaio

    Mataram o nosso chefe?

    Tenacidade das PalavrasBy Tenacidade das Palavras05/05/2025Sem comentários3 Mins Read
    Mataram o nosso chefe?
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    Ainda susceptível a especulações, “Mataram o nosso chefe”, uma obra lançada no dia 17 de Abril no Hotel Escola na Cidade Inhambane, chancelada pela Massinhane Edições, pela conotação que atribuímos ao léxico “chefe”.

    O autor alia amplo domínio das técnicas de narração, e se assemelha a um alfaiate que – de retalho a sobra de retalho – costura o seu traje literário. É desta maneira que constrói as suas histórias, a partir de pequenos retalhos das vivências e experiências dos diferentes lugares pelos quais o seu itinerário da vida até então o permitiu. O resultado são 8 histórias que compõem a lombada “Mataram o nosso chefe” precedidos pelas anteriores oito de “Há exorcismos em Ndjofane (2023)”.  Todas as histórias têm uma narrativa fantástica com temática digna de uma reflexão profunda quanto ao que dá título ao livro.

    “A minha filha não casa com pagão”, “Duplo lobolo” e “Capitão Mponha”, por exemplo, exploram com densidade esta profunda reflexão em temas que preocupam a contemporânea sociedade. Nesta história que dá rosto a obra, seguimos no enredo uma saga de “adultério” de um tal Dr Dimande, Chefe e gestor da empresa Sobral e “vingança” da sua esposa Ndola. A Milena, a antagonista da história interfere na relação de Dimande e Ndola, o que de certo modo causa desconforto na relação, pois Dimande torna-se um homem ausente em casa, está sempre e missões de serviço, apesar de Dimande prover tudo quanto é necessário, a Ndola vive este desconforto. E em meio a isto tudo, surge a Catarina com conselhos obscuros – a busca de mezinha num curandeiro para resgatar o seu homem. E é, de facto, isto que se sucede. Dimande é engarrafado, e torna se igual a cão, não sai de casa, não há mais missões de serviço, nem há mais Milena – a secretária dengosa. A sua masculinidade é colocada em blackout – é morta. É está morte simbólica que se pode ler em “Mataram o nosso chefe”. É, portanto, desta viés que Ubisse mostra-nos a perspectiva como algumas missões de serviço são uma fachada, ou qualquer coisa “insensata” pode haver das antes-salas de secretárias aos gabinetes dos chefes.

    É de uma escrita que carrega o sentido de humor peculiar, até mesmo quando aborda uma situação crua, difícil de engolir, Ubisse tem um jeito de arrancar uma sombra de riso do leitor (quem leu “Há exorcismos em Ndjofane” sabe de quê estou a falar). Todas as histórias são costuradas com provérbios como se de uma renda narrativa fosse, um recurso que Ubisse explora desde o seu livro de estreia.

    Recomendo, o livro é agradável, lê-se num sopro!

    Alerto Bia

    Bar 21, 23 de Abril, 2025

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