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    Ensaio

    Ecos do Trovadorismo no Romance Moderno “Ausências, Intermitências e Outras Incompletudes”, de Valério Maúnde

    Fernando ChaúqueBy Fernando Chaúque15/01/2026Sem comentários5 Mins Read
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    “Ausências, Intermitências e Outras Incompletudes”, segunda obra literária de Valério Maúnde, lançada em 2022 sob chancela da Ethale Publishing, explora uma variedade de temáticas contemporâneas e universais. O romance aborda o amor e a saudade, mas também se debruça sobre questões sociais e históricas urgentes, como a pandemia da Covid-19, a violência doméstica, a questão do terrorismo em Cabo Delgado e os impactos do uso moderno das tecnologias de informação e comunicação. A obra evidencia, deste modo, uma reflexão profunda sobre a condição humana em tempos de crise, particularmente no que tange à força de um amor desmascarado e genuíno, ao mesmo tempo em que dialoga com a realidade moçambicana contemporânea.

    Em “A Angústia da Influência”, Harold Bloom discute a maneira como textos literários dialogam com tradições anteriores e com os seus “ancestrais literários”, sugerindo que toda obra literária é, de algum modo, influenciada por textos que a precederam. Assim, podemos, a partir deste pensamento, encontrar um conceito útil para discutir como elementos medievais podem ressoar em romances modernos.

    São consideradas características do Trovadorismo o amor, a saudade, o sofrimento e o desejo, sobretudo expressos nas cantigas de amor e de amigo. Esse movimento literário remonta aos séculos XII a XIV e se caracteriza principalmente pelo canto, combinando poesia e musicalidade. Por outro lado, o Romance enfatiza os sentimentos e emoções humanas exploradas com profundidade, como o amor, a angústia, a frustração e o desejo, surgindo em épocas posteriores, com foco na prosa. Apesar das diferenças formais, a poesia musical do Trovadorismo e a prosa do Romance, ambos valorizam a exploração da experiência afectiva humana, reflectindo de maneiras distintas os anseios e conflitos da condição individual e social.

    Na obra literária em análise, o personagem principal, Daniel, ou carinhosamente chamado Danny, é também o narrador autodiegético, o que permite ao leitor acompanhar de perto os seus pensamentos, sentimentos e reflexões. A figura de Daniel remete a um verdadeiro espírito trovadoresco, sobretudo no seu relacionamento com a sua amada Vanessa. Essa veia poética e romântica é reforçada pela presença recorrente do Velho Mestre Lhavanguane, uma espécie de guia moral e literário que aparece sempre que Daniel deseja justificar os seus cortejos ou orientar-se na vida amorosa. Como ele mesmo reflecte:

    “(…) contrariando assim as orientações do meu bom e velho mestre Lhavanguane que me dizia (…) – Nunca há mau momento para elogiar uma mulher. Se ela estiver triste, elogie-a, faça-a desabrochar; se feliz, elogie-a na mesma, faça-a transbordar.”

    Essa figura funciona como um elo entre a tradição trovadoresca e o romance moderno, lembrando a orientação poética e ética que guiava os trovadores nas suas cantigas de amor e de amigo.

    Outros elementos reforçam a relação do romance com o Trovadorismo. A profissão de Daniel, revisor linguístico de um jornal (físico), evoca uma simplicidade e ligação à tradição, afastando-se da valorização moderna de profissões tecnológicas ou “glamourosas”. O trabalho com papel e a antiguidade da função remetem à vida simples e dedicada dos trovadores, que valorizavam a palavra escrita e cantada. Em contraste, a escolha do autor para a profissão de Vanessa — arquitecta — traz um toque contemporâneo à narrativa, equilibrando tradição e modernidade. Essa dicotomia se evidencia quando Vanessa sofre um acidente e Daniel mobiliza tanto o jornal onde trabalha quanto as redes sociais para angariar doadores de sangue:

    “Em pouco tempo, a informação estava a circular em todas as redes sociais de maior popularidade (Whatsapp, Facebook, Instagram e Twitter).”

    A simplicidade e proximidade do personagem também se revelam em detalhes quotidianos: o uso da moto como meio de transporte, a pontualidade, a sensibilidade e assertividade na escolha de flores e o constante envio e recitar de poemas — próprios ou citando grandes nomes da literatura lusófona, como Mia Couto e Fernando Pessoa — para encantar a Vanessa. A cordialidade de Daniel transcende a amada e alcança a família dela, como ao saudar a mãe de Vanessa:

    “Entrou a mãe da Vanessa. Pus-me em pé para saudá-la. Eu tinha aprendido com o Velho Lhavanguane que as mulheres são rainhas, dignas de honras e vénias, por Deus lhes ter outorgado a missão de parir o mundo.”

    A obra também dialoga com o trovadorismo em aspectos de cortesia e ritual. Daniel manifesta seu cavalheirismo na atenção aos detalhes, mas a narrativa também valoriza gestos tradicionais, como o cuidado de Vanessa ao mostrar o conhecimento e prossecução da tradição africana de lavar as mãos dos convidados durante a festa de inauguração da sua residência:

    “Vanessa entrou na sala com uma pequena bacia na mão esquerda, uma jarra na mão direita e uma toalha no ombro (…) Vamos lavar as mãos.”

    Finalmente, outro elemento significativo que aproxima o romance do Trovadorismo é a temática da saudade, central nas cantigas de amigo, em que o eu lírico se dirige a um amigo distante, expressando o sentimento de ausência. No romance, Daniel e Vanessa vivenciam a saudade, sobremaneira, em duas ocasiões: durante a pandemia da Covid-19 e quando Vanessa ganha uma bolsa de estudos para fazer o seu Mestrado nos Países Baixos (Holanda). A saudade é abordada, por Daniel, com sensibilidade e cortesia indeléveis do amor:

    “A Vanessa estava feliz, eu estava feliz por ela. Assim é o amor de quem ama: tem na alegria do outro a sua (…).”

    Tal como nas cantigas de amigo, a distância não impede a vivência do amor; pelo contrário, evidencia que o amor é mais que sentimento, é compromisso e decisão.

    Em suma, como pudemos observar, a veia poética de Daniel, a saudade, a cortesia, a simplicidade, os gestos e a presença do mestre simbólico revelam como o romance moderno de Maúnde reinterpreta a tradição trovadoresca, trazendo-a para um contexto contemporâneo sem perder a intensidade afectiva e estética da poesia medieval.

    Por Jaime S. Bonga

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    Ensaio Romance
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    Fernando Chaúque
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    FERNANDO ABSALÃO CHAÚQUE Licenciado em Ensino de Língua Inglesa pela Universidade Pedagógica de Maputo, é professor de profissão. É também escritor, autor do livro “Âncora no Ventre do Tempo” (2021), Prémio Literário Alcance Editores, edição de 2019, e co-autor das seguintes obras: “Barca Oblonga” (editora Fundza, 2022), “Mazamera Sefreu” (editora Kulera, 2023) e “Atravessar a pele” (Oitenta Noventa, 2023). Fez parte dos livros “Os olhos Deslumbrados” (FFLC, 2021); “Um natal experimental e outros contos” (Gala Gala edições, 2021).

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