Vírgula, escrevo mais uns dois períodos e ponto. Outro período inundado de vírgulas e no fim, ponto. Releio o parágrafo sem a mínima minúcia. Dor de vista, não sei, talvez precise de mais uma cerveja ou ir ali no bar conversar para voltar mais inspirado. Apago o parágrafo inteiro e abandono o computador. Dou voltas pelo quarto-escritório, quero muito escrever, mas a preguiça limita-me a produtividade. Bebo água para humedecer a garganta e volto à mesa escrivã. Já sei. Vou escrever sobre preguiça, é também um tema como qualquer um. Tem origens e consequências e até existem autores sobre a temática da preguiça. Já me decidi. Preguiça é o tema do texto.

Ofereço-me a chance ímpar de emparelhar a imaginação com dedos que serão responsáveis pela materialização do pensamento. Sou tão preguiçoso que as mãos se queixam de dor por relaxamento, perdoo-me, que culpa tenho de não ter disposição para um exercício de escrita, ainda por cima, que pouco remunera? Aliás, é um vislumbre ter preguiça e ainda escrever sobre ela. Não é uma mera justificação, é um acto heróico enfrentar os nervos adoecidos e ainda insistir em reanimar. É um acto heróico, sem dúvida. Sou herói.

Escrevo para ser lido e é vergonhoso quando o título é: preguiça. Mas é um facto. A falta de leitura já limita as conversas, ando tão impaciente que as tentativas de levar a uma donzela para cama são directas. Não me escondo na estética e no bom paladar das palavras. É um sintoma da preguiça porque as palavras me fogem. Há dias pedi em casamento uma jovem linda que a conheci no chapa. Fiz o pedido no primeiro minuto que a vi. Fui directo, e para minha sorte ela também foi receptiva à minha preguiça. Ela não estranhou o meu pedido, é religiosa. Em resposta, ela disse que eu devia pedir a mão dela perante o pastor e os pais. Beijou-me, no mínimo, agora estou com preguiça de ir falar com pastor. Não posso mentir para ele.

Estou assombrado que há risco de morrer a fome porque vivo de escrita. É meu ofício. Os psicólogos poderiam identificar o vazio da minha criatividade em conversa terapêutica. Preciso. Essa preguiça é mortal e devo considerar como risco à segurança emocional e criativa. Sempre confiei nas minhas temáticas e agora me parecem padecidas, sem algum significado. É alarmante. O café, a cerveja só me deixam de olhos abertos para contemplar a página em branco ou com ideias soltas e idiotas. Estou ofendido comigo próprio.

Por agora vou ali tomar  umas cervejas e apreciar mulheres. Ainda espero regressar à casa e reiniciar o texto que abandonei. É provável que um ambiente descontraído me recomponha para assertividade e rigor profissional. É o que espero como feedback das cervejas que vou tomar.  Os outros bêbados vão redireccionar o meu senso de trabalho e humor com as suas conversas de embriaguez. Vou lá.

Por Jorge Zamba

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