Alguém grande, muito grande mesmo, anunciou, com a força de um trovão, que iria “fazer diferente para obter resultados diferentes”. Ninguém imaginava que o “diferente” viria com pneus de tractor. Mas eis que o Governo, num gesto de puro génio inovador, decidiu reinventar o transporte público rural com tractores com atrelados de luxo. Sim, senhor. Nem Elon Musk pensaria nisso.

Afinal, quem precisa de autocarros quando se tem tractores? Porque investir em estradas, quando se pode investir em pneus gigantes que nem a lama mais teimosa consegue parar? Isso, sim, é pensar fora da caixa — ou melhor, fora da estrada. Isso é fazer diferente.

O país que já foi conhecido pela sua luta heróica pela independência, agora será lembrado como o primeiro na história a transformar um instrumento de agro-pecuária num sistema de transporte público. É a verdadeira mobilidade “agro-humana”. Quem vive nas zonas rurais pode agora dizer: “Vou à cidade, mas primeiro preciso esperar o tractor das 07h.” Que tal tractores a fazerem o transporte interprovincial?

E é claro que esta iniciativa não deixa de reflectir o espírito do novo lema presidencial. Esqueçamos o velho hábito de construir estradas — isso é coisa do passado! Agora, o foco é trabalhar. “Vamos Trabalhar”, claro: “não consertem os caminhos, adaptem os veículos.” Porque, em Moçambique, o problema nunca foi a estrada — foi o autocarro!

A primeira província a beneficiar da revolução agro-pecuária do transporte foi Cabo Delgado, porque, se há um lugar onde a mobilidade deve parecer um passeio num carro de bois vitaminados, é ali. Afinal, nada diz “desenvolvimento sustentável” como um reboque amarelo puxado por um tractor vermelho com mais força do que um boi zangado quando escapa dos terroristas.

Enquanto isso, os passageiros, felizes e agradecidos, sacodem os ossos em cada buraco do caminho, com um sorriso no rosto e a certeza de que vivem numa era de inovação — rural, claro. Afinal, quem não quer tocar a campainha para parar o transporte sem gritar: “Paragem, cobrador!”?

Portanto, aplaudamos esta política audaciosa! E que venham mais ideias assim: drones para carregar doentes, barcos personalizados para servirem de ambulâncias.

Porque, afinal, fazer diferente é isso: pegar o impossível, vesti-lo de tractor e dar-lhe o nome de progresso.

Com toda a humildade que a ignorância me permite.

Tulinho, um alfaiate “ruralmente” impressionado.

 

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FERNANDO ABSALÃO CHAÚQUE Licenciado em Ensino de Língua Inglesa pela Universidade Pedagógica de Maputo, é professor de profissão. É também escritor, autor do livro “Âncora no Ventre do Tempo” (2021), Prémio Literário Alcance Editores, edição de 2019, e co-autor das seguintes obras: “Barca Oblonga” (editora Fundza, 2022), “Mazamera Sefreu” (editora Kulera, 2023) e “Atravessar a pele” (Oitenta Noventa, 2023). Fez parte dos livros “Os olhos Deslumbrados” (FFLC, 2021); “Um natal experimental e outros contos” (Gala Gala edições, 2021).

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