Ao fim de cada tarde, Marracuene ganha um cenário que deveria ser de esperança: crianças e adolescentes de uniforme a regressarem das escolas, símbolos vivos do futuro que se desenha. Mas, nos becos, nas paragens de chapas, junto às barracas, entre as árvores, a esperança começa a desbotar. As mãos que deviam carregar cadernos agora seguram garrafas de álcool. As bocas, que deviam repetir fórmulas matemáticas ou frases de Paulina Chiziane, soltam gargalhadas anestesiadas por cigarros e outras substâncias cujo nome até é proibido pronunciar.

Eles estão ali. De uniforme. Orgulho de pai, vaidade de mãe. Mas o que acontece entre o portão da escola e o portão de casa?

A quem cabe a culpa?

Ao sistema, que muitas vezes finge que educar é apenas ensinar a escrever e a contar?
Aos professores de bata, também embriagados pelo tempo de espera do dinheiro das horas extras?
Aos pais, que deixam os filhos crescer sozinhos porque a vida os força a escolher entre o pão e a presença?

Ao Estado, que constrói muros escolares mas não investe no que acontece do lado de fora deles?
À sociedade, que vê, comenta, julga, mas nada faz? (Até porque repreender filho alheio já é crime).
Aos próprios adolescentes, que se deixam levar por todas as falhas e, sobre eles, não tomam decisões acertadas?

Ou será que somos todos cúmplices silenciosos de um sistema que ensina a vestir uniforme, mas não a honrá-lo?

Os adolescentes de Marracuene, muitos deles ainda com voz fina e sonhos grandes, estão a ser empurrados para o abismo por uma combinação perigosa de desatenção, falta de orientação e influência destrutiva. Trocam a juventude por ressacas, o brilho nos olhos pela névoa nos sentidos.

E isso não é normal. Isso não é liberdade. Isso não é moda. Isso é uma tragédia em construção — pior, uma tragédia causada por negligenciar as regras exigidas para se iniciar uma construção.

A vocês, adolescentes que ainda conseguem me ouvir através do ruído das festas vazias e da fumaça dos erros:

Vocês valem mais do que isso.

A escola, os pais, podem não ensinar tudo, mas a vida cobra tudo. E a vida não se esquece das dívidas, não se distrai.

O álcool não resolve os medos: apenas os adormece por minutos e os multiplica no dia seguinte.
As drogas não vos fazem fortes: apenas disfarçam as vossas fraquezas e cobram juros muito altos.

Ser jovem e adolescente é ser semente. Mas de que vale a semente que apodrece antes de tocar o solo?

Não deixem que vos digam que é “normal” perder-se tão cedo.
O vosso uniforme não é apenas tecido, que até o alfaiate de palavras pode costurar: é um símbolo. Representa a oportunidade que muitos dos vossos irmãos nem sequer têm.

Escolham honrar as vossas famílias, o vosso futuro, o vosso próprio corpo.
É possível mudar. É possível resistir.

E sim, é possível vencer com a cabeça limpa, os olhos abertos — sem denúncia do vermelho das substâncias psicoativas — e o coração firme.

Porque Marracuene não precisa de mais túmulos jovens. Precisa de líderes jovens.
E essa liderança começa quando dizes: “Não. Eu sou mais do que isso.”

Por Tulinho, arturalbertomacombo@gmail.com

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FERNANDO ABSALÃO CHAÚQUE Licenciado em Ensino de Língua Inglesa pela Universidade Pedagógica de Maputo, é professor de profissão. É também escritor, autor do livro “Âncora no Ventre do Tempo” (2021), Prémio Literário Alcance Editores, edição de 2019, e co-autor das seguintes obras: “Barca Oblonga” (editora Fundza, 2022), “Mazamera Sefreu” (editora Kulera, 2023) e “Atravessar a pele” (Oitenta Noventa, 2023). Fez parte dos livros “Os olhos Deslumbrados” (FFLC, 2021); “Um natal experimental e outros contos” (Gala Gala edições, 2021).

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