Nem me apetecia enumerar os livros que andei a folhear ao longo do ano. Não me apetecia e ainda não me apetece. No entanto, partilharei algumas coisas na esperança de chegar a alguém que, provavelmente, pense que vale a pena saber o que os outros andaram a ler… de alguma forma, sentir-me-ei alegre em saber que isto foi útil para alguém. Caso contrário, terei gasto energias em vão na tentativa de exibir alguns títulos e autores.

O grande livro que li, ao longo de 2024, foi escrito por mais de trinta milhões de pessoas. O mesmo intitula-se Moçambique. Alguns co-autores deste livro comportaram-se mal ao longo do ano e negaram direitos autorais a outros co-autores que têm exigido uma parte dos lucros que a editora vai distribuindo, graças às vendas satisfatórias deste mesmo livro.

Trata-se de um livro bastante apaixonante, escrito em papéis de ouro e rubi, lombadas de gás natural e areias pesadas, sem contar que alguns capítulos deste livro abordam questões atinentes a paraísos que se fazem passar por praias e parques de conservação natural.

Os maldosos co-autores deste livro deram-se ao direito de tirar a vida dos seus colegas por estes simplesmente exigirem a construção de uma biblioteca na rua mais badalada da cidade. Não queriam muita coisa senão uma biblioteca recheada de livros e vários outros tipos de documentos. Os que faziam exigências foram torturados, raptados, atropelados, baleados e submetidos a um processo de contínua diabolização.

Escrevendo isto, chego à conclusão de que não vale a pena mencionar Steinbeck, Kundera, Auster, Pepetela ou Moravia, porque os co-autores do livro mencionado acima não querem saber de autores estrangeiros sem antes terem a sua própria biblioteca na cidade. Grande parte destes co-autores nem sabe que existe literatura, romance, poesia ou Nobel de Literatura.

Um pouco antes de pedirem a construção de uma biblioteca, clamaram também por um prato de comida para que pudessem ter energias para ler, alguns clamaram por corrente eléctrica para que pudessem ler às madrugadas, outros pediram escolas condignas e professores competentes para que pudessem aperfeiçoar a leitura e a escrita.

Enfim… tratando-se de um livro longuíssimo, encontro-me ainda a lê-lo, às vezes volto a alguns capítulos, mas sempre que possível consulto o dicionário e a gramática para apreciar a linguagem do livro, assim como para compreender a sua estética.

Não mais me alongarei. Encontro-me ainda na exaustão da transição do ano, não tenho tinta suficiente para escrever, usei todo papel para limpar o orifício sagrado e não acredito que as pessoas possam gastar o pouco tempo que lhes resta para apreciar os parágrafos desta coisa, que alguns chamarão texto.

Por: Albert Dalela

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FERNANDO ABSALÃO CHAÚQUE Licenciado em Ensino de Língua Inglesa pela Universidade Pedagógica de Maputo, é professor de profissão. É também escritor, autor do livro “Âncora no Ventre do Tempo” (2021), Prémio Literário Alcance Editores, edição de 2019, e co-autor das seguintes obras: “Barca Oblonga” (editora Fundza, 2022), “Mazamera Sefreu” (editora Kulera, 2023) e “Atravessar a pele” (Oitenta Noventa, 2023). Fez parte dos livros “Os olhos Deslumbrados” (FFLC, 2021); “Um natal experimental e outros contos” (Gala Gala edições, 2021).

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