É bastante pesada a capa de crítico literário. Não cabe na vértebra de qualquer leitor. Reserva-se aos homens com olhos atrás dos seus olhos. A eles dispenso-a. A mim, mero leitor, reservo-me a breves considerações que não passam disso.

Em Incêndios à Margem do Sono, Óscar Faneiro rasga-nos e arrasta-nos para dentro de cada palavra, cada verso, cada texto e entrelinhas. Com um estilo poético híbrido, a pendular entre o verso e a prosa poética, descarrega-nos um basculante de metáforas, meticulosamente trabalhada, com uma selecção vocabular no auge do seu sentido. É um hinário de meditação que não nos deixa inteiros.

Como um cristão no confessionário, nele mergulhado, este texto-livro cobra-nos a voz sobre o nosso silêncio hegemónico: Escutas agora o louvor/a homilia de que se fazem os prantos/as estrelas/e a larga urbe dizimando contra/o silêncio/pois ninguém fala da morte/a não ser quando esta lhes chega (p.64). É impossível ler Incêndios à Margem do Sono e não mergulhar nas vértebras doloridas do país que nos tem por enteados e não esconde as dores plurais, principalmente.

Neste exercício que, de certa forma, nos sugere herdeiros da noite, herdamos a inevitável insónia. Diz Óscar: A noite tece a circunscrição da distância; e destes mapas cujas estrelas ombrearam o fogo, o sono surge estéril e fiel a terrível gestação de sombras. (pg.74). É aqui onde se acha a razão do título do livro. Decalco, por isso, o mérito do Prémio Literário Fernando Leito Couto a este livro atribuído. É duro, ao mesmo tempo fascinante, ler Fanheiro, principalmente, quando se têm os dias azedos quanto estes em que vivemos hoje.

É a melhor versão escrita e inscrita das nossas lágrimas, dos nossos medos, dos nossos sustos. Apesar de tudo, larga-nos, no final de tudo, no profundo oceano de esperança. Mas é apenas uma possibilidade: Atravessar/ a solidão entre as pálpebras da pedra/a pólvora deste silêncio/em que o sangue incendeia a espinha/do alfabeto/sobre o recôndito alvorecer/do poema/agora que garimpamos a primavera/sobre a sombra de todas as coisas (p.90). É, ao mesmo tempo, a expressão do quão é difícil atravessar os cravos dos dias em que o sangue é mastro. Sobre esse cetim precioso, há sempre Deus com que se preenche o que pode ser o difícil ou achado impossível (vide os poemas das páginas 48 e 50). É uma obra literária recente (2023) quanto actual que nos folheia o olhar com uma certa indelicadeza.

Impera-me arriscar que Óscar Fanheiro é, sem dúvidas, uma das vozes fortes da nova geração dos poetas moçambicanos. Com uma forma mais primorosa de fazer poesia, destaca-se entre tantos (bons), como o Otildo Justino, Jaime Munguambe, Britos Adriano Baptista, Alerto Bia, Jeconias Mocumbe, Gibson João… Não é muito distante de Pedro Pereira Lopes, Francisco Guita Jr., Lino Mukurruza, Nick do Rosário, M. P. Bonde, Álvaro Taruma, Jeremias F. Jeremias, só para mencionar.

Por Baptista Américo

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