O género literário: é um recipiente, não uma prisão; uma ferramenta, não uma limitação. Este é um princípio simples, mas frequentemente mal compreendido. Para muitos escritores — especialmente os iniciantes — o género pode parecer um conjunto de restrições, uma fidelidade forçada a uma determinada forma de contar. Mas os escritores deveriam encarar o género como um conjunto de ferramentas e disposições que os ajudam a tomar decisões estratégicas sobre forma, estrutura e voz. Não como parâmetros fixos, mas como estruturas dentro das quais se pode construir — recipientes capazes de conter a intensidade do seu material.
A poesia aguça a atenção ao ritmo, à imagem e à concisão; ensina a deixar que o silêncio e os espaços em branco carreguem peso emocional. A ficção convida a uma causalidade imaginada — não para espelhar a realidade, mas para compreendê-la melhor, aprofundá-la ou reinventá-la. Sua grande força está na capacidade de gerar significado por meio da invenção e da estrutura. A não ficção exige lealdade aos factos, mas oferece flexibilidade infinita em perspectiva, interpretação e voz. É possível condensar o tempo, entrelaçar cronologias, omitir ou destacar detalhes — e, com isso, moldar uma verdade pessoal com precisão. Estes não são limites rígidos. São mecanismos criativos que recompensam diferentes instintos. Um bom escritor não apenas escreve dentro de uma forma; ele escolhe o recipiente com base naquilo que a obra precisa.
Esse processo — de ouvir as necessidades da obra e responder com escolhas formais — é reflectido pelo poeta Randall Mann. Em entrevista a Tobias Wray para a The Adroit Journal, Mann afirmou: “Cada poema pede a sua própria arquitectura; talvez eu esteja aprendendo a ouvir melhor essas exigências… Forma e conteúdo não são apenas complementares, são a mesma coisa.” Seus versos curtos, muitas vezes rimados, não servem apenas como ornamento ou disciplina, mas como estruturas que geram conteúdo. “In a time of Logorrhea” escreve ele, “eu amo as exigências do verso curto, e o modo como as rimas oferecem conteúdo — se eu escutar o poema.”
É assim que os escritores deveriam pensar sobre género. Não como caixas fixas em que se deve caber, mas como uma conversa em constante evolução entre forma e conteúdo. Quando um escritor diz “só escrevo ficção” ou “não sou poeta”, deveria ser desafiado a experimentar o oposto. Não para convertê-lo, mas para lhe dar ferramentas. De facto, escritores de prosa podem aprender concisão com a poesia. Autores de memórias podem encontrar verdades emocionais ao criar certa distância ficcional. A questão não é tornar-se formalista ou híbrido. É fazer as melhores escolhas para o seu material.
Nesse sentido, o género assemelha-se à coreografia ou à arquitectura. Ele oferece forma e limites — mas dentro desses limites, tudo pode acontecer. E quando um texto parece não funcionar, muitas vezes sugere-se trocar de recipiente. Transformar uma cena das suas memórias em um conto curto. Transformar um monólogo interno em um poema. Essas mudanças nem sempre funcionam — mas sempre ensinam. Tornam o escritor mais atento ao ritmo, mais sensível aos vazios, mais disposto a experimentar.
O género não deve ser visto como um teste de lealdade, mas como uma forma de escuta. Como diz Mann, o poema “pede” algo. O mesmo acontece com o ensaio, a cena, a imagem. Compreender o género é ter as ferramentas para responder. Ajuda o escritor a tornar-se mais ágil — capaz de se adaptar quando o material exigir. Porque a obra sempre sabe mais do que o escritor. E quanto mais recipientes ele souber usar, maiores as chances de conseguir captá-la.
Mesmo ao escrever “dentro” de um género, os melhores trabalhos muitas vezes emergem dessa tensão descrita por Mann e Jenkinson: entre liberdade e contenção. Escrever torna-se um acto de conter — não de aprisionar. E quando o recipiente é o certo, ele não apenas abriga a obra: potencializa-a. Ele a faz cantar.
O género não é uma partida de futebol. O escritor não precisa escolher um lado. Mas precisa escolher uma forma. De preferência, aquela capaz de conter suas obsessões mais estranhas, cruas e exigentes — aquelas que não o deixam em paz até serem moldadas em algo que perdure.
Fonte original: The Lab, de Matthew Clark Davison e Alice LaPlante.
Tradução: Fernando Absalão Chaúque
