O mundo todo colore-se de luzes e sinos tocam pressagiando a época natalícia. O mundo fora recebe com entusiasmo a visita do pai natal. Porém na minha comunidade, a realidade é outra, e não é como nos anos anteriores em que reunimo-nos para escrever cartazes com textos que emitem mensagens de celebração e felicitações natalícias e penduramos com luzes “piscadelas” nos postes das ruas e esquinas para iluminar e criar efeitos durante a noite. Falando da noite, lembro-me também que numa noite, antes do dia 25, de costume, ficávamos na rua conversando e soltando gargalhadas entre amigos e vizinhos.

Comparando com os anos passados, neste não houve preparativos para a recepção da visita anual tão esperada, aliás as pessoas sequer manifestaram ansiedade pela sua chegada. As ruas estão todas desertas e com obstáculos. Estão visíveis estilhaços de garrafas arremessadas uma noite antes do dia 25; pode-se ver ainda vestígios de pneus queimados realçando o preto da nossa terra. Na diáspora, o mundo está todo colorido de vermelho enquanto isso o preto descreve o luto da minha comunidade. O silêncio separa amigos e familiares, a alegria divorciou-se de nós. Ao anoitecer ouvem-se explosões, mas não são de fogos-de-artifício, trata-se de tiros, sim os disparos são usados para substituir a tradição dos fogos-de-artifício. O medo e a insegurança estão instalados no seio da comunidade.

No desabrochar do dia, uma saudação esporádica de um vizinho cruza a fronteira do quintal de casa interrompendo-me de lavar a roupa:

– Bom dia, vizinho!

– Bom dia!

Respondo para não parecer indecente, embora com ar de poucos amigos. Todavia, o vizinho graceja a minha cortesia e o provável sucede para o meu desalento.

– Feliz natal para ti, vizinho!

Olho-o com desdém e, sem hesitar, começo a praguejar – o vizinho não vê que o país não está bom?

– Não estou preocupado com o país. Ontem a noite alguns vizinhos e eu estivemos na manifestação e voltámos com óleo, carne, e uns saquitos de arroz. Se quiser podes vir te juntar a nós mais logo.

Cabisbaixo, recusei juntar-me a eles.

– Obrigado, vizinho, mas prefiro passar o dia na companhia da minha família.

Por fim, ele acenou com as duas mãos lamentando a minha decisão.

Retomo a lavar a roupa. Não obstante, ponho-me a reflectir “o país está à beira de um colapso, mesmo assim há quem tem interesse em festejar e, ainda por cima, alegrar-se com a desgraça do outro”?

Por Lénio Paulo Muhate

 

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FERNANDO ABSALÃO CHAÚQUE Licenciado em Ensino de Língua Inglesa pela Universidade Pedagógica de Maputo, é professor de profissão. É também escritor, autor do livro “Âncora no Ventre do Tempo” (2021), Prémio Literário Alcance Editores, edição de 2019, e co-autor das seguintes obras: “Barca Oblonga” (editora Fundza, 2022), “Mazamera Sefreu” (editora Kulera, 2023) e “Atravessar a pele” (Oitenta Noventa, 2023). Fez parte dos livros “Os olhos Deslumbrados” (FFLC, 2021); “Um natal experimental e outros contos” (Gala Gala edições, 2021).

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