Estudar em Angola é um pouco como tirar a carta de condução: não é nenhum direito, é apenas uma concessão admitida pelo Estado angolano ou por um dos seus lacaios. E se tirar a carta de condução exige domínio do código de estrada e destreza ao volante, o que se exige àqueles que querem acessar o sistema de ensino é de outra ordem e natureza. Primeiro, há exigências de ordem administrativa: ser o primeiro a colocar uma pedra nos alicerces do pavimento da escola ou, caso sejamos os últimos no fim da fila, ser o primeiro a acordar com o palúdico zumbido dos mosquitos.

Em seguida, e também não sei porquê, surgem exigências de ordem estética: o cabelo para baixo, nunca para cima, lisos têm livre trânsito e crespos não devem passar do portão. E, ainda de ordem estética, há uma obsessão dos agentes do Estado por aquilo que vestimos. A Educação no meu país vem depois da beleza, desconhecendo o facto de que não existe beleza sem bibliotecas.

E talvez vocês não acreditem. Quer dizer, o meu país é de morrer a rir, mas perguntem ao Nelson e ao irmão Joshua, impedidos de entrar no colégio durante uma semana porque o que estava a bater no colégio eram umas calças jeans azuis clássicas, iguais às do ano passado, não fosse o daltonismo da Direcção da escola. E quer dizer, sinceramente, que beleza é não ter bibliotecas e usar batas num país tropical? Verdade seja dita: há muito que estudar deixou de ser um dever revolucionário.

Texto de Jorge Pimentel

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FERNANDO ABSALÃO CHAÚQUE Licenciado em Ensino de Língua Inglesa pela Universidade Pedagógica de Maputo, é professor de profissão. É também escritor, autor do livro “Âncora no Ventre do Tempo” (2021), Prémio Literário Alcance Editores, edição de 2019, e co-autor das seguintes obras: “Barca Oblonga” (editora Fundza, 2022), “Mazamera Sefreu” (editora Kulera, 2023) e “Atravessar a pele” (Oitenta Noventa, 2023). Fez parte dos livros “Os olhos Deslumbrados” (FFLC, 2021); “Um natal experimental e outros contos” (Gala Gala edições, 2021).

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