Eu era um menininho quando, pela primeira vez, percebi que o mundo não é azul, e no mesmo advento descobri que havia diferenças entre pai e mãe, e entre marido e mulher, mas não o descobri da melhor forma. Quando descobri, ou melhor, quando a vida me forçou a descobrir, também percebi que nem todos os progenitores são considerados verdadeiros pais ou mães.

Era sexta-feira da Semana Santa, depois de um dia divertido na escola, talvez só Deus soubesse o que me esperava naquele dia.

Por volta das 19 horas, o dia desacelerou com a chegada do meu pai, que habitualmente só chegava à meia-noite e discutia com a minha mãe, mas eu nem sequer sabia. Naquele dia, sexta-feira, deixei de acreditar no Pai Natal, em unicórnios, e noutras coisinhas do meu mundo azul.

O meu pai chegou e não falou com ninguém. Um silêncio e calafrios pairavam na nossa humilde e incolor sala de estar. O meu pai, que causara o silêncio desconfortante, desligou a televisão que transmitia o noticiário, e calaram-se todas as notícias do país e do mundo. Logo a seguir, foi para o quarto.

Não demorou muito e, de forma mal-educada, como quem chama um cão de rua, chamou pela minha mãe, que, com o rosto algo envergonhado, se levantou e foi ter com o antigo príncipe encantado e actual príncipe enfeitiçado. Eu, com os meus pressentimentos negativos, fui logo abraçar o meu mano Quinho, e senti que o coração dele acelerava, mas ele era, naquele momento, o meu suporte.

Do nada, sons estranhos emergiam do quarto dos nossos pais. Eram “gum gum gum”, nas paredes e no chão, e ficámos em pânico até que se ouviu uma voz que me fez congelar: era a da minha mãe a dizer: “Nandayeyou, o vosso pai quer matar-me.”

Entrei numa fase de congelamento total. Não sabia o que dizer, pensar ou sentir, era o confronto de duas pessoas amadas.

O mano Quinho não demorou a reagir: correu, pegou num pau de vassoura e num vaso que estava sobre a mesa, e foi para a batalha, salvar a mãe. Arrombou a porta e começou a lutar com o papá. Naquele momento, não havia pai nem filho, apenas dois seres com o sangue a ferver. Como diriam os cristãos: “estavam a ser usados pelo diabo”. Se existia um simples laço entre os dois, morreu naquele dia.

Do nada, a minha mãe gritou: “Joãozinho, vai pedir ajuda agora!” Eu, que estava sem reacção, saí a correr, para onde, não sei, mas gritei: “Socorro! Socorro! Socorro!”…
Sem demoras, o tio Paixão e o mano Tonito chegaram e separaram a briga naquela casa que deixara de ser lar…

E no mesmo instante, chegaram mais pessoas da vizinhança, que logo começaram com murmúrios, mas isso não me importava.

Aquela sexta-feira ainda vive em mim, como o pior filme de terror da minha infância, pois uma das coisas mais difíceis para uma criança é ver um conflito entre pessoas amadas e não saber o que fazer.

Quanto à família, posso dizer que nunca mais foi a mesma.

Eu não sou o mesmo.

Carrego em mim questões crónicas:

Qual é o verdadeiro significado de pais?

Quando é que alguém se considera pai ou filho?

Quem errou e quem acertou naquele dia?

Como se destrói uma família?

Qual é o meu papel no mundo?

Por que é que isto aconteceu na minha família?

Que criança não foi marcada pela violência doméstica?

Desculpem… são tantas questões que me ferem todos os dias.

Por Leandro Rodney

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FERNANDO ABSALÃO CHAÚQUE Licenciado em Ensino de Língua Inglesa pela Universidade Pedagógica de Maputo, é professor de profissão. É também escritor, autor do livro “Âncora no Ventre do Tempo” (2021), Prémio Literário Alcance Editores, edição de 2019, e co-autor das seguintes obras: “Barca Oblonga” (editora Fundza, 2022), “Mazamera Sefreu” (editora Kulera, 2023) e “Atravessar a pele” (Oitenta Noventa, 2023). Fez parte dos livros “Os olhos Deslumbrados” (FFLC, 2021); “Um natal experimental e outros contos” (Gala Gala edições, 2021).

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