Quinta-feira, Fevereiro 12

O país acordou deserto e sobre cinzas com ausência de meios de transporte nas vias públicas. Numa passeata ao longo da praça pode-se ver vários estabelecimentos comerciais e instituições públicas diversas em ruínas. Após uma semana inteira de “caos e desordem”, toda a gente decidiu enfrentar o medo e a insegurança por conta da fome que tende a afectar a população. “Depois da tempestade vem a bonança”, conforta-me o ditado popular em meio a um ambiente hostil no qual o país se encontra e que tem deixado todo mundo apreensivo em plena véspera do final do ano.

Um dilema descreve a situação social que caracteriza a vida dos cidadãos nos dias que correm: “há dinheiro, porém não há como adquirir produtos e bens”. Os agentes móveis carecem de capital financeiro devido ao não funcionamento dos bancos. No exterior de poucos e raros estabelecimentos que se encontram abertos (lojas, mercearias) vai engordando uma grande quantidade de clientes com muita paciência e todo tempo do mundo à espera da sua vez chegar para obter os produtos.

Na companhia de alguns amigos e vizinhos dirijo-me à mercearia, por sinal a única em funcionamento arredores do bairro em busca de um saco de arroz para garantir a refeição diária nesta fase derradeira do ano. Não surpreende o número de pessoas que estão na porta da mercearia, afinal de contas “a fome não escolhe estômago”, por isso homens e mulheres vão a busca da solução para este problema comum. O sol não perdoa, vai fazendo sua parte nesta altura do verão aquecendo a terra, e as pessoas nas filas vão assando como carne na brasa. É notável o combate corpo a corpo na tentativa de cada um esticar o seu braço no meio de milhões de braços pendurados no peito do murro da mercearia. Sigo o protocolo que vigora na suposta fila espera sem procurar saber a quem devo seguir após ouvir uma reclamação levantada por um dos clientes:

– Tio Armando, estou a pedir me atender eu cheguei aqui há muito tempo e ainda não fui atendida, mas outros que chegaram agora já estão a ser atendidos, não é justo.

Senhor Armando, o dono do estabelecimento disfarça um riso sarcástico como quem está a ouvir e apela a calma a todos os presentes garantindo haver “stock de arroz” suficiente para todos cabendo a cada um aguardar pela sua vez na fila.

Um mar de vozes emitidas por um grupo de jovens impacientes inunda o átrio do estabelecimento. – Se demorarem nos atender hitamiwela….

Um dos funcionários segreda ao “patrão” para que livre-se daquele grupo para evitar correr o risco de sofrer a “pena máxima”, perder tudo para as mãos da população por conta de incitação. O grupo de jovens é imediatamente atendido e de seguida abandona o local com muita euforia e ares de sagacidade. Não se sabe se eles terão usado um “truque” para serem dados prioridade, mas o que viu-se por fim foi um “boicote de fila de uma jogada de mestre”.

– Estou a pedir me dar Feliz Família… eu quero Minha Vida… Tem tio António? A mim basta dar-me arroz e ir para casa, é tudo. O remanescente suplica ao proprietário por uma vaga na fila numa altura em que o sol vai curvando no ocaso despertando minha atenção ao ver a hora do telefone que aponta um quarto para hora cinco da tarde.

O proprietário sai por um instante supostamente para fazer trocos. Num intervalo de cinco a dez minutos, ele regressa com uma notícia de última hora para a aflição de todos – Só ficou arroz China do saco de feliz família e arroz Selena.

– Mariana ainda tem? Insta um cliente de aparência jovial.

– Acabou, mas tem Minha vida perfumado. Sugere o Senhor Armando.

– Pode dar-me esse mesmo. Concorda sem hesitar.

A quantidade de braços vai reduzindo e decido mudar de atitude e posição para outro lado onde o proprietário dá mais prioridade aos respectivos clientes. Ser social e conviver com todos tem sua vantagem em momentos de crise.

– Vai dar um Feliz família ao sivale.

Fico surpreso com o atendimento VIP e abano a cabeça e com um olhar de esguelha para um dos funcionários e ao reparar de volta ele aproxima e finalmente aceita levar o meu valor e entrega-o ao seu patrão e confirmo o saco que pretendo levar dos que restaram.

– Hei-de levar Feliz Família (China). Sem preferências, apoio o saco nas minhas costas com destino à casa, por fim respiro de alívio após repousar o saco de arroz na varanda de casa com o suor a escorrer-me pelo corpo todo.

Por Lénio Paulo Muhate

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FERNANDO ABSALÃO CHAÚQUE Licenciado em Ensino de Língua Inglesa pela Universidade Pedagógica de Maputo, é professor de profissão. É também escritor, autor do livro “Âncora no Ventre do Tempo” (2021), Prémio Literário Alcance Editores, edição de 2019, e co-autor das seguintes obras: “Barca Oblonga” (editora Fundza, 2022), “Mazamera Sefreu” (editora Kulera, 2023) e “Atravessar a pele” (Oitenta Noventa, 2023). Fez parte dos livros “Os olhos Deslumbrados” (FFLC, 2021); “Um natal experimental e outros contos” (Gala Gala edições, 2021).

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