Qual é a fita, rapaz? Aqui não se passa nada, a caminhada é a seguinte: apenas quero dizer-te que vale a pena perder algumas horas a ver “Sintonia”, uma série disponível na Netflix. Fiquei bastante maravilhado, da primeira à última temporada. São apenas cinco temporadas, tendo a última sido lançada em Fevereiro do ano em curso. É a mais longa série brasileira naquela plataforma, provavelmente a mais vista.

Sempre admirei o cinema brasileiro. A minha paixão data desde os tempos das “clássicas” telenovelas da TV Globo. Quem não se lembra de Tais Araújo e Lázaro Ramos em “Cobras e Lagartos”, ou de Murilo Benício e Giovanna Antonelli em “O Clone”?

Não é novidade que os moçambicanos têm uma relação intrínseca com a telenovela brasileira, atraídos pela língua ou pela forma com que a vida suburbana é representada. Referindo-me ao cinema, entretanto, como é possível não ter visto “Estômago”, “Cidade de Deus” ou “Tropas de Elite”?, quem se esqueceu do “Assalto ao Banco Central”?

Tive a oportunidade de ver Christian Malheiros, pela primeira vez, em “7 Prisioneiros” – um filme dirigido por Alexandre Moratto. Rendi-me ao seu talento, a sua capacidade de “mudar da água para o vinho”, interpretando um personagem complexo com faces de um anti-herói que nos convida a amá-lo para depois detestá-lo severamente. No filme intitulado “Sócrates”, também dirigido por Moratto, Malheiros já tinha mostrado ao mundo que o cinema brasileiro está em boas mãos, fazendo jus aos diversos prémios que recebera.

Em “Sintonia”, entretanto, Malheiros foi mais brilhante, como se tivesse conseguido superar-se a si próprio. Uma coisa de loucos. Aos primeiros capítulos, pensei que o personagem interpretado por Malheiros – ao lado dos seus dois amigos de sempre – pudesse ter um comportamento semelhante ao de Laranjinha ou Acerola em “Cidade dos Homens.” Mas não… Nando ou (ND da VA), personagem representando por Malheiros, é muito mais brilhante em muitos aspectos, como se vários anti-heróis se tivessem apossado dele.

É totalmente criminoso não aplaudir a performance de Jottapê, que interpreta MC Doni. A trilha sonora destrói a teoria de que funk é um género musical negativo, responsável por promover ostentação material, sexo, drogas e violência. Analisando as letras cantadas por Doni, fica notório que a comunicação social é responsável pela redução do funk a um mero género marginal.

Não, meus senhores, o funk brasileiro é o novo RAP, é a vibe subversiva dos nossos dias, a voz que luta contra a violência da polícia nos bairros de lata, onde falta praticamente tudo, onde os negros são igualados ao lixo e à desgraça; no funk também abordam-se problemas filosóficos e relações humanas profundas.

O funk não é somente sobre sexo, dinheiro e violência – estes rótulos foram popularizados pela media branca como mecanismo de enfraquecer a expressividade das desfavorecidas gentes da favela. A Cultura Hip-Hop também passou por todos estes ataques e rótulos negativistas até que se firmasse e fosse reconhecido e valorizado, na esfera global.

São profundas e nostálgicas as músicas que ecoam ao longo dos capítulos de “Sintonia”, e Jottapê consegue excelentemente representar o jovem sonhador de qualquer subúrbio, enfatizando que “enquanto estivermos vivos, tudo é possível.”

Bruna Mascarenhas, interpretando o personagem Rita, apaixona-nos pelo seu carisma e capacidade de expressar, com perfeição, melancolia e alegria. Ela sorri e chora facilmente, da mesma forma com que grita e gagueja. Na verdade, ela é uma espécie de fio condutor. Como se a série não pudesse existir sem ela, como se as cenas vividas na peça fossem a sua vida real.

Se alguém me questionasse sobre esta peça, eu diria que a mesma se debruça sobre a vida dos residentes das favelas de São Paulo. Estes residentes, em última instância, são representados por três jovens, nomeadamente: Nando, MC Doni e Rita. São três protagonistas. No entanto, indo mais a fundo, observa-se que o maior protagonista de todos é Nando ou ND da VA – ambicioso chefe de uma facção criminal. Nando, o mais importante criminoso da Vila Áurea, cresce sozinho ao lado da sua avó adoentada.

Num dos seus comoventes discursos, através de uma gíria marginal, ND diz o seguinte: “Quando cresci, não tinha nada. Só tinha uma avó doente para cuidar. Quando ela morreu, fiquei sem rumo, sem caminho, sem nada. O crime foi o único lugar que me estendeu a mão. Achei foda, porque naquela época lutávamos pelo certo, queria mudar a minha vida e fazer justiça (…) o tempo passa e começamos a ver que não há certo nem errado, muita ideia torta, muita (gente) sem futuro entrando na caminhada.”

Este discurso, acompanhado pelas cenas chocantes em movimento, dialoga perfeitamente com a actual realidade de muitos jovens moçambicanos, empurrados para o mundo do crime pela fome, desemprego, falta de perspectiva e marginalização. O crime está sempre de mãos abertas, abraça a todos, tem sempre uma janela aberta para quem não tem nada a perder. Enquanto moçambicano, o discurso de Nando perfura-me o peito e nele observo jovens do meu subúrbio, que não tendo nenhuma perspectiva de vida, recorrem ao crime e ao álcool para fugir das humilhações. Não são vândalos, são pequenos Nandos nos becos de Moçambique.

“Sintonia” é sobre três jovens amigos com rumos diferentes: um criminoso, um músico e uma multifacetada obreira-cristã, que começara a vida nas ruas para depois formar-se em Direito graças à sua vontade de se superar e distanciar-se do crime.

Sem o criminoso Nando, MC Doni e Rita jamais se teriam superado. Com o dinheiro do crime, ND ajudou os amigos a ter uma vida melhor, fora do crime. ND não é um bandido qualquer, é um homem carismático que ama os seus, um homem com sentimentos e medos, mas com aversão ao sistema formal de justiça, não crê nas instituições, olha para o Estado com desamor, porque a polícia declarara guerra contra a sua comunidade.

Faz um favor a ti mesmo: vá ver “Sintonia”. E não te esqueças de ver outros trabalhos de Christian Malheiros.

Por Albert Dalela

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