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Os livros entraram em mim em choro de nervos

Disciplinador. Era assim que consideravam o meu pai nas ruelas do bairro. Um disciplinador. Para mim e minhas irmãs, era um carrasco. Tenho ainda nítido no labirinto da memória um álbum de fotografias. Fotografias nítidas, sem as habituais nódoas do tempo que as infestam, nem cantos desbotados dos papéis antigos.

Os livros entraram em mim, na minha vida, em choros de nervos. Choro de nervos, é assim que classificava o choro da minha infância. Nervos em cima dos textos dos manuais escolares, principalmente o de português. Não havia outra maneira de ler um texto sem pingar lágrimas nas páginas de livros. Os manuais ficavam húmidos de lágrimas e muco. Por algum motivo implícito eu odiava o manual de português – era para mim a porta para a violência das mãos duras do meu pai, em nome dos livros. Sempre que anoitecia, depois do jantar, vinha-me o manual de português, as mãos do meu pai e a torrente de lágrimas.

E os colegas olhavam para a forma como o manual de português estava húmido nalgumas páginas; com a nódoa do dedo indicador do meu pai a espetar as palavras que eu devia saber ler com olhos já rasos de lágrimas. A professora alertada pelos meus colegas, vinha com a sua autoridade vasculhar um bebedor de água na minha mochila de saco. Apesar de serem livros gratuitos, a professora advertia-nos que cuidássemos deles.

Na semana seguinte, lemos “o limpo e o sujo” um texto que retractava os cuidados que devemos tomar com os manuais e cadernos, acima de tudo a higiene que devemos tomar com as coisas. Hoje, ainda lembro com duas línguas de fogo a arder no lugar dos olhos. O meu pai não se importava se eu chorava sobre os livros; importava-se apenas com a entrada de livros e mais livros na minha vida. A leitura prolongava-se até tarde. Depois do jantar, eram livros e livros na minha vida.

Quando me perguntam como os livros entraram na minha vida, sempre respondo que foi por choro de nervos; um retoque de eufemismo para dizer os livros entraram na minha vida através da violência das mãos duras do meu pai.

Por Nelucha das Dores

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Fernando Chaúque

FERNANDO ABSALÃO CHAÚQUE Licenciado em Ensino de Língua Inglesa pela Universidade Pedagógica de Maputo, é professor de profissão. É também escritor, autor do livro “Âncora no Ventre do Tempo” (2021), Prémio Literário Alcance Editores, edição de 2019, e co-autor das seguintes obras: “Barca Oblonga” (editora Fundza, 2022), “Mazamera Sefreu” (editora Kulera, 2023) e “Atravessar a pele” (Oitenta Noventa, 2023). Fez parte dos livros “Os olhos Deslumbrados” (FFLC, 2021); “Um natal experimental e outros contos” (Gala Gala edições, 2021).

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