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20 Excertos do livro “A Desumanização” de Valter Hugo Mãe

20 Excertos do livro “A Desumanização” de Valter Hugo Mãe

Valter Hugo Mãe, um dos mais proeminentes escritores contemporâneos de Portugal, é aclamado não apenas em sua terra natal, mas em todo o mundo. Sua obra literária transcende fronteiras, sendo traduzida para inúmeras línguas e recebendo calorosas críticas em diversos países. Com uma lista impressionante de romances premiados, como “As doenças do Brasil,” “Homens imprudentemente poéticos,” e “A Desumanização,” este autor multifacetado também encanta leitores de todas as idades com suas histórias cativantes. Neste post, mergulharemos em “A Desumanização,” um romance que nos transporta para os remotos fiordes islandeses e nos apresenta a voz singular de uma jovem que enfrenta a perda de sua irmã gémea. Vamos aqui explorar 20 excertos marcantes desta obra incrível, onde a tristeza encontra espaço para a redenção e a beleza persiste mesmo nas circunstâncias mais difíceis. Junte-se a nós nesta jornada literária pela visão única de Valter Hugo Mãe sobre a experiência de estar vivo.

20 Excertos do livro “A Desumanização” de Valter Hugo Mãe
Capa do Livro
  1. A poesia é a linguagem segundo a qual deus escreveu o mundo. Nós não somos mais do que a carne do poema.
  2. O ódio era um sentimento sem educação. Os sentimentos educados cabimentam cada ofensa numa categoria diferente.
  3. Rezar é como dar corda à morte. Quanto mais rezamos, mais encomendados a Deus estamos. E ele vai sempre lembrando mais e mais, até poder decidir que lhe fazemos jeito e nos mata.
  4. Em liberdade, a beleza atrai a sorte. Em cativeiro, a beleza atrai o azar. Dizia beleza como podia dizer o amor.
  5. O meu pai dizia que eu era uma mangueira branca grávida de uma gota de água.
  6. Os homens são mulheres funcionalizadas, instrumentalizadas para um objetivo muito claro que apenas elas podiam traçar.
  7. Num certo sentido, todos os homens começaram por ser uma mulher.
  8. Entre gémeos, a morte entrega ao sobrevivo a alma do que partiu.
  9. O Steindór dizia que cuidar da casa era como cuidar do encontro com deus. Achava que deus nos visitava a cada instante e que para cada visita se devia preparar asseio e sossego. Deus queria o sossego.
  10. Disse-lhe que não aceitava mais ser criança. As crianças não sepultam filhos. Quem sepulta um filho não tem idade. Está para lá das idades, para lá dos tempos, tem uma posse do mundo que independe de todas as limitações. A intensidade de quem sepulta um filho é semelhante à das forças inaugurais ou terminais. Pode fazer e desfazer tudo.
  11. O pior amor é este, o que já é feito de ódio também.
  12. A vida não se pode adiar.
  13. A religião era uma forma de teimosia. As preces faziam-nos perseverar. E acreditar que deus se ocuparia também dos nossos destinos era uma casmurrice, talvez.

14.O mapa de deus é infinito, é preciso que saibamos caber nele a nossa terra, e isso não se faz com abrir para aqui caminhos nem aumentar o tamanho ou o número das casas. No mapa de deus as coisas aparecem pelo admirável do engenho, a candura, a aventura da inteligência ou da intuição.

  1. O meu marido era perfeito, falava perfeito e pensava perfeito, e eu era a razão para a sua inspiração, estou certa de que ainda o inspiro na morte. Sou a sua musa. Sou uma mulher que ensina à morte muito acerca da beleza e da dignidade.
  2. Os poemas são instintivos, eu disse. Uma natureza instintiva que quase nos redime. Às vezes, um poema acende-se como um candeeiro dentro da cabeça. Fica-se a ver muito bem o que até então nunca se vira. Pendurar um poema e atravessar com ele a noite inteira sem sequer nos darmos conta de que se fez noite.
  3. Pensava que os livros eram animais de barriga imensa para onde caíam os leitores, puxados por textos inquinados, maquiavélicos, feitos de malícias, maldades, mentiras, deturpações, transformações do que era certo em condutas erradas. Os livros tinham presas e dentes afiados e comiam gulosamente as pessoas.
  4. A minha tia dizia que o fogo, onde quer que estivesse, era também a boca de deus. Porque o que consumia entrava numa dimensão paralela. Desmaterializava-se. Tornava-se insondável. Eu achava que aquele fogo não era anfitrião. Seria certamente a boca do diabo.
  5. O fogo era anfitrião. Consumia os livros como se deus os lesse. Haveria de julgar cada frase. Os escritores teriam sempre longas contas para acertar com deus, por se atreverem a deixar as ideias mais perigosas ao serviço dos mal preparados, dos ingénuos, dos sonhadores, dos que errariam em qualquer decisão perante as questões mais elementares. Deus haveria de sentenciar cada texto e cada memória, e todos os escritores seriam triturados entre os seus dedos para caírem como pó no esquecimento do inferno.
  6. Não ler, pensei, era como fechar os olhos, fechar os ouvidos, perder sentidos. As pessoas que não liam não tinham sentidos. Andavam como sem ver, sem ouvir, sem falar. Não sabiam sequer o sabor das batatas. Só os livros explicavam tudo. As pessoas que não lêem apagam-se do mapa de deus.

Ficha técnica

Título: A Desumanização

Autor: Valter Hugo Mãe

Editora: Porto Editora

Págs.: 164

Ano: 2023

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Fernando Chaúque

FERNANDO ABSALÃO CHAÚQUE Licenciado em Ensino de Língua Inglesa pela Universidade Pedagógica de Maputo, é professor de profissão. É também escritor, autor do livro “Âncora no Ventre do Tempo” (2021), Prémio Literário Alcance Editores, edição de 2019, e co-autor das seguintes obras: “Barca Oblonga” (editora Fundza, 2022), “Mazamera Sefreu” (editora Kulera, 2023) e “Atravessar a pele” (Oitenta Noventa, 2023). Fez parte dos livros “Os olhos Deslumbrados” (FFLC, 2021); “Um natal experimental e outros contos” (Gala Gala edições, 2021).

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